Após a crise, consumo volta a crescer, mas com moderação

Domingo, 04 de Fevereiro de 2018 em Geral

POR ANA PAULA RIBEIRO / GLAUCE CAVALCANTI

 Marcelo Piu / Agência O Globo

Foto: Marcelo Piu / Agência O Globo

 

A grande dúvida para o varejo, indústria de bens de consumo e consultores do setor é saber se o consumidor que neste início de retomada se mostra mais racional na hora de comprar, irá deixar a ponderação de lado e fazer mais compras por impulso ou se continuará mais comedido quando a reação vier de forma mais intensa. A resposta só virá quando a retomada já estiver consolidada, mas há indicativos de que a exuberância não volta tão cedo.

A volta ao consumo de forma mais consciente foi o caminho escolhido por Andressa Dimes Pereira, profissional da área de marketing de relacionamento. Ano passado, ela e o marido conseguiram comprar um imóvel. Cada gasto no novo lar, contudo, é planejado. A compra do armário para um dos quartos só ocorreu em uma promoção na Black Friday.

- Se não fosse isso, esperaria mais, porque é algo não essencial. Para este ano, que terminamos de pagar o financiamento do carro, vai começar a ter uma sobra de renda a mais. A gente cortou muita coisa, como parar de comer fora. Optamos por melhorar a qualidade do que consumimos em casa - disse ela, acrescentando que já planejam como gastar essa folga no orçamento.

Os gastos com lazer, por sinal, são os que mais devem demorar a responder na saída da crise. Levantamento da Nielsen mostra que dos consumidores que perderam com a recessão, mas já se recuperam, a maior parte é da classe C. Ao terem sofrido o baque no orçamento, estão mais racionais e reduziram em 25% os gastos de uma forma geral. O lazer foi o item mais afetado, com queda de 35%. Eles, no entanto, expressaram o desejo de voltar a consumir produtos que deixaram de comprar e querem gastar mais com o imóvel próprio.

- Um dos indicativos de maior consciência desse consumidor, em especial o que ascendeu a uma nova classe e depois sofreu com a crise, foi a liberação dos recursos do FGTS no ano passado. O dinheiro foi usado basicamente para quitar dívidas. Ele entendeu que o endividamento em excesso pode ser prejudicial e agora está mais preocupado com as finanças pessoais - disse Mariana Morais, especialista em consumo da Nielsen.

Já Rodrigo Catani, diretor de consultoria em varejo da AGR, acredita que ainda é cedo para saber se essa ponderação do consumidor vai perdurar:

- Será que o consumidor ficará mais criterioso? Não é o histórico do brasileiro. Mas algumas pessoas aprenderam a lição. Para outras, será preciso esperar a estabilização da renda para sabermos. Mas a retomada será aos poucos. Não é momento e nem seria possível uma explosão de consumo atualmente, já que 2015 e 2016 foram anos muito difíceis para o brasileiro .

Ainda machucado pela crise, o consumidor está mais atento aos preços, destaca Cristina Della Penna, diretora de Marketing da consultoria em consumo Neoway, afirmando que em uma cenário de inflação baixa, mudanças de preços chamam mais atenção.

- O que tem mudado bastante é a sensibilidade do consumidor ao preço. Grandes alterações precisam vir acompanhadas de melhorias. O consumidor está atento e com a grande difusão de informações a migração para outros produtos é facilitada - disse.

Além do carrinho do supermercado, a expectativa é de crescimento também na venda de bens duráveis. Lourival Kiçula, presidente da Eletros, associação dos fabricantes de eletrodomésticos, espera que 2018 traga desempenho superior ao do ano passado, em especial pela volta do crédito - que teve queda por dois anos consecutivos. As vendas da linha branca encerraram o ano com alta de 3%, as TVs subiram 36% e os eletroportáteis, 21%. Esperar um crescimento ainda melhor parece otimismo, mas o dirigente lembra que o crescimento se deu em cima de uma base muito fraca.

- Em 2014, vendemos quase 15 milhões de televisões. Em 2016, o número caiu para 8,4 milhões e, ano passado, recuperamos e vendemos 11,5 milhões. Para 2018, esperamos que vá chegar a 12,6 milhões, ainda longe do recorde - disse Kiçula.

Na Abinee (associação da indústria elétrica e eletrônica), a expectativa é de um crescimento de 7% no faturamento em 2018, acima dos quase 5% do ano passado.

- Vamos continuar com crescimento na venda de celulares e notebooks. E nesse ano também vamos começar a ter maior faturamento nas vendas ligadas à produção de energia, devido à melhora da economia e aos leilões do setor - disse Humberto Barbato, presidente da associação.

Francisco Pessoa, economista da LCA, lembra que um ciclo de crescimento que seja puxado, no início, pelo consumo, não é exatamente ruim. Isso porque é um crescimento que deve ocorrer sem pressão nos preços porque as indústrias ainda estão com capacidade ociosa. Enquanto a demanda se recupera, elas têm tempo de fazer novos investimentos - e aí sim, a partir de 2019, os investimentos terão um papel maior no crescimento da economia.

- Em 2009, o PIB recuou por fatores externos. Na retomada, consumo e investimento tiveram papéis importantes. Mas era uma situação diferente. Havia uma série de incentivos do governo para habitação e consumo, entre outros. Hoje não há mais essa possibilidade de política pública - avaliou.