Saque de FGTS e sinal digital fazem venda de TV voltar a crescer

Ter?a-feira, 18 de Julho de 2017 em Geral

Fonte: Valor Econômico

Freitas da Semp TCL, "O preço da tela subiu muito em dólar. Então isso deve evoluir para uma negociação com o varejo".

A indústria de televisores, a maior do segmento de bens de consumo no país, projeta vender no varejo cerca de 9,5 milhões de unidades neste ano, mesmo patamar de 2015, quando o setor já amargava queda no ritmo de consumo da população, informou ontem a Eletros, entidade do setor. Em vendas das lojas ao consumidor, fabricantes ouvidos ontem estimam volume de vendas de 9 milhõesde aparelhos (a diferença se refere ao estoque nas lojas). Se passar de 8,46 milhões de TVs para os 9,5 milhões projetados, haverá alta de 12,3% em quantidade vendida da indústria ao varejo.


Será a melhor taxa de crescimento para os fabricantes desde 2011, quando o mercado cresceu 15%, e desde então só teve altas inexpressivas ou quedas de vendas, segundo dados da Eletros, que ontem abriu a feira anual do setor, a Eletrolar, em São Paulo.
Pode ser ainda o primeiro ano de expansão após dois anos consecutivos de queda, em 2015 e 2016, quando as vendas caíram 37% e 11%. Mas mesmo com o avanço previsto, o setor ainda terá vendido pouco menos de 65% do que vendeu na Copa do Mundo de 2014.


De janeiro a junho, o volume vendido alcançou 5,2 milhões de aparelhos, expansão de 30,5%, com base na venda das fábricas para as lojas - mas esse índice deve cair no segundo semestre para menos da metade, em parte pela base de comparação mais forte do segundo semestre do ano passado.Ao se considerar todo o mercado eletrônico (linhas marrom, branca e portáteis) as vendas do setor subiram 18,5% de janeiro a junho sobre o mesmo período de 2016. O volume vendido das fábricas para as lojas passou de 32,3 milhões para 38,3 milhões de unidades, informa a Eletros.


Empresários ouvidos ontem na Eletrolar entendem que essa recuperação em 2017, além dos números comparáveis mais baixos de 2016, reflete a leve melhora no ambiente de consumo no país para alguns bens duráveis, especialmente entre abril e junho. Especificamente em relação ao mercado de TV, a alta reflete a migração do sinal analógico para o digital, que levou parte dos consumidores a trocar de TV (ainda que por modelos de preços baixos), em vez de comprar apenas o conversor de sinal. Ainda há o efeito da liberação do saldo de contas inativas do FGTS, que ampliou a demanda de certos itens.


"Foram, de longe, os dois maiores efeitos na alta deste ano, e no momento, ainda mais do que redução na taxa de juros, porque queda em taxa tem mais efeito de longo prazo, enquanto que o FGTS e o novo sinal digital tiveram reflexo imediato nas vendas", disse Ricardo Freitas, presidente da Semp TCL. A empresa projeta alta maior que o mercado, na faixa de 40%, porque promoveu uma recente reestruturação, trocando de sócios da Toshiba para a TCL, e isso fez as suas vendas desacelerarem em 2016.


Num ambiente um pouco mais otimista do que em anos anteriores, e por conta de pressões em custos de produção, já existem discussões no mercado em torno da hipótese de um movimento de reajuste de preços das marcas de eletrônicos ao varejo no segundo semestre. Isso já ocorreu no primeiro semestre com a linha branca (segmento que inclui refrigeradores e lavadora de roupas), como informou o Valor este mês.


Executivos presentes ontem na Eletrolar confirmam o movimento, assim como redes varejistas. "Nós sabemos que eles vão vir com algo, não por causa do dólar, porque ele mostra certa estabilidade, mas por causa de aumento no preço de insumos na Ásia. Ainda não colocaram as tabelas na mesa, mas já colocaram o assunto nas reuniões com o comercial", diz um diretor de uma rede paulista.


"Ocorre que o preço da tela subiu muito em dólar e 75% da TV hoje é a tela. Então isso deve acabar evoluindo para uma negociação com o varejo na segunda metade do ano], imaginando um reajuste de um dígito alto", diz Freitas. A tela nas TVs de LED subiu cerca de 20% em dólar nos últimos 12 meses, acrescenta.


Para Lourival Kiçula, presidente da Eletros, a questão central dos reajustes é que, apesar de a indústria alegar necessidade de repasses, a maior parte dos consumidores ainda rejeita determinados aumentos porque sentiu a queda na renda com a crise.
"Mudam o preço, e aí fica complicado porque muitas vezes o consumidor não aceita. O problema é que há aí também uma pressão nas margens da indústria. Então, tentam fazer um ajuste fino em preço para não perder volume e tentar algum ganho final. É uma conta sempre difícil de ser feita", diz Kiçula, ao comentar aumentos recentes nos produtos da linha branca.


Nesse segmento, a Eletros informou ontem projeção de alta de 5% nas vendas da indústria para o varejo em 2017, de quase 13 milhões para 13,6 milhões de unidades, entre refrigeradores, fogões e lavadoras de roupas. A linha branca não cresce no país desde 2012, segundo dados da Eletros, com base em indicadores de vendas dos associados da entidade. Mesmo se subir esses 5%, recuperará muito pouco das perdas de 2013, 2014, 2015 e 2016, quando as reduções foram de 3,7%, 4%, 17% e 11%, respectivamente, no volume vendido de linha branca para as lojas. Em 2012, último ano de expansão, as vendas aumentaram 18,2%. Desde então, entre 2013 e 2016, portanto, o setor só encolheu no país e pode voltar a crescer em 2017, estima a Eletros. "Difícil hoje pensar nos volumes de quase 19 milhões vendidos em 2012. Difícil até precisar tempo para isso", diz Kiçula.


De janeiro a junho, o segmento de linha branca encolheu 3% e teria que acelerar as vendas na segunda metade do ano para virar a taxa para o positivo projetado. "É algo possível se mais produtos reagirem. A venda de fogão sobe hoje [3% de alta de janeiro a junho], enquanto lavadora e refrigerador caem [queda de 7%]. Podemos ter um cenário de alguma recuperação, mas ainda gradual", afirma Kiçula.